quinta-feira, 1 de março de 2012

Caldo de cana no divã

Uma vez por semana eu faço análise. Todos deveriam fazer, eu recomendo. Nos minutos que antecedem o meu horário, religiosamente me sento na pastelaria chinesa em frente ao prédio de minha analista e peço um caldo de cana e um pastel de queijo. Ali, tento colocar mentalmente em ordem o que pretendo falar durante a sessão.


Algo interessante sobre caldo de cana é o fato de que ele não é previsível. A cada vez, dependendo da "safra" da cana, ou da estação do ano, ou de qualquer fator completamente aleatório, a cor e o sabor são completamente diferentes. Não há como prever o sabor do caldo de cana. Algumas vezes extremamente doce, outras mais amargo, noutra aguado, concentrado, ou simplesmente com sabor perfeito. O número de pedras de gelo também é aleatório em cada dia. Isso implica na temperatura, mais quente, ou agradavelmente gelado.


A sessão é, assim como o gosto da cana, imprevisível, independente das minhas tentativas inúteis de fazer uma lista mental do que vou falar. O direcionamento que se dá, as conclusões, a temática, o caminho... sempre imprevisível. Dá para antever apenas até o momento em que a cana é introduzida na moenda. A partir dali, o que virá e como virá, a cada dia, a cada sessão, tem um sabor completamente diferente.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Pensamento do dia...





Nada tem qualquer poder sobre mim além daquilo que permito por meio de meus pensamentos conscientes


(Anthony Robbins)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Marisa Perez Acosta -Estampa española

Instrumental: "Estampa española". (Improvisação sobre temas populares da Espanha.)
O que ela faz em 3:35 é muito bom! Aliás, a apresentação toda!


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Redes sociais - uma reflexão

Outro dia eu estava no divã de minha analista quando notei que eu já havia citado naquela sessão dois eventos ocorridos comigo no Facebook. Nesta semana no ambulatório de psiquiatria atendi uma paciente que contou eventos ocorridos na mesma rede social e que a levaram a uma desestabilização psíquica. Fiquei muito pensativo sobre este novo espaço vivencial que passa a estar presente nas narrativas psicopatológicas de nossos pacientes - e nas nossas próprias. O mundo virtual tornou-se uma extensão de nossas vidas e para os nossos conflitos. As relações sociais estão cada vez mais expostas e flutuam numa realidade paralela, para alguns  tão mais complexa em interação com outros indivíduos do que em suas próprias vidas "reais". A escuta por parte do profissional da área psi deve ser cautelosa, sendo necessário empatia (capacidade de colocar-se no lugar do outro indivíduo) e conhecimento sobre a nova realidade que nos absorve. Estamos vivendo, sem nos darmos conta, em um novo modelo  que possui implicações sobre a maneira como nos expressamos ao mundo externo, como recebemos estímulos, sejam positivos ou geradores de conflitos e frustrações, e de como nosso comportamento social sofre influências. Certa vez ouvi de um psicanalista um conceito, uma teorização, sobre a extensão da consciência. Ele dizia que quando duas pessoas estão conversando, suas consciências estão projetadas no centro espacial entre as duas pessoas. Ali elas, as consciências, se encontram e se comunicam. Trago este conceito para a realidade do mundo virtual a que estamos nos expondo na internet e nas redes sociais. Utilizar estes meios é projetar sua "consciência" para onde milhares estão tendo acesso. É acessar milhares e milhares de outras consciências e de alguma forma se interconectar a elas. Isso não é pouca coisa. Nesta exposição pessoal absorve-se uma infinidade de informações desnecessárias, entra-se em contato com idéias, problemas,   ordens e desordens, conteúdo e lixo, e ao mesmo tempo, coloca-se um pouco de si para os demais. O que estamos absorvendo? O que estamos dando de contribuição para este novo universo? O quanto podemos estar nos deteriorando, ou de que forma pode haver nisso algo de construtivo? O fato desse novo mundo estar se mostrando cada vez mais presente na sala do psiquiatra ou no divã do analista é algo para se pensar e muito seriamente. O mundo que nos cerca, o real, o do nosso próprio imaginário, e agora o virtual, tornam-nos mais frágeis e ainda mais distantes da sensação subjetiva de bem estar e felicidade ao qual passamos a vida buscando.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Alotriofagia

Na avaliação de um paciente com alotriofagia (perversão do apetite, com ingestão de objetos nocivos, como por exemplo, pedras) que acompanho, fui fazer a palpação abdominal. Enquanto comprimia seu abdome perguntei: "se sentir alguma dor ou desconforto me avise!". Ao que obtive como resposta, junto a um sorriso: "Não, doutor, pode continuar, a massagem está muito boa!"

Este mesmo paciente, durante um passeio, rapidamente recolhe uma pequena pedra no chão, e leva à boca, engolindo-a, sem que houvesse tempo de impedí-lo. Sob meu protesto sobre o ato, e minha pergunta do porquê fazia aquilo, respondeu-me com a maior simplicidade e lógica: "Estou com fome!"