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terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Lenda dos Médicos

Conta a lenda que quando deus liberou para os homens o conhecimento médico, determinou que aquele saber ficaria restrito a um grupo pequeno e selecionado. 
Mas, neste pequeno grupo, onde todos se achavam semi-deuses, havia aquele que trairia as determinações divinas. 
Deus, bravo com a traição resolveu fazer valer os seguintes mandamentos: 

1. Não terás vida pessoal, familiar ou sentimental. 
2. Não verás teu filho crescer. 
3. Não terás feriado, finais de semana ou qualquer outro tipo de folga. 
4. Terás gastrite, se tiveres sorte. Se for como os demais, terás úlcera. 
5. A pressa será teu unico amigo e as tuas refeições principais serão os lanches, as pizzas e o china in Box. 
6. Os teus cabelos ficarão brancos antes do tempo, isso se te sobrarem cabelos. 
7. Tua sanidade mental será posta em cheque antes que completes 5 anos de trabalho. 
8. Dormir será considerado período de folga, logo não dormirás. 
9. Trabalho será teu assunto preferido, talvez o único. 
10. A máquina de café será tua melhor colega de trabalho, porém a cafeína não te fará mais efeito. 
11. Happy hours serão excelentes oportunidades de ter algum tipo de contato com outras pessoas loucas como você. 
12. Terás sonhos com pacientes, e não raro, resolverás problemas de trabalho neste período de sono. 
13. Exibirás olheiras como troféu de guerra. 
14. E o pior ... inexplicavelmente gostarás de tudo isso! 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Beijoqueiro

Essa aconteceu comigo quando eu ainda era acadêmico do hospital Souza Aguiar, em Agosto de 2007.
Havia relatado num outro blog que eu possuía, achei e resolvi publicar novamente aqui!

Em uma segunda-feira bem passada, chego no plantão do Souza Aguiar e, como de costume, havia uma confusão na sala dos homens. Um senhor estava aos berros com uma enfermeira, que gritava tanto quanto ele. Entrei na sala, coloquei a mão no ombro do homem que me disse aos berros: "Faça alguma coisa por aquele negro que está ali a gritar de dor! Hoje é o dia da consciência negra e é um absurdo ninguém estar a fazer nada por ele!". Disse a ele que ficasse calmo pois faria o possível. Fui até o paciente em questão, e a enfermeira começou a gritar comigo que eu não fizesse nada pois ele já estava prestes a receber a medicação. Voltei então minha atenção para o senhor que berrava. 

"O senhor está bem? Como é o seu nome?". 
"Eu sou o beijoqueiro! " 
"Você é o beijoqueiro? " - e ele pegou a minha mão e beijou-a. 
"Meu nome é José Alves de Moura, sou o beijoqueiro! " 

Seguiu-se uma anamnese interessantíssima. Aquele era um senhor português de 68 anos com um bonezinho do Vasco da Gama. Enquanto eu tentava me entender com a história clínica dele, ele cantou fado, declarou poemas para as enfermeiras e acadêmicas que passavam, tentou beijar o médico da sala que se esquivou e passou direto para seu bunker de proteção anti-pacientes.
Sr. José dizia que seu apelido era beijoqueiro pois já havia beijado até o Papa, o Zico, o Pelé... os pacientes e acompanhantes a minha volta riam descaradamente e eu, sério, conduzia a anamnese e o exame físico. E ele completava: "sou beijoqueiro, também beijo os homens como homenagem mas não gosto de homens não, viu?" E declamava mais um verso cantado sobre a beleza de uma acadêmica que passava, que ignorou-o solenimente. Por fim, até o acadêmico bolsista me chamou num canto e mandou eu "despachar" logo aquele paciente maluco dali. Voltei para meu paciente, prescrevi o que ele precisava para o pico hipertensivo e dei-lhe a guia para a radiografia, pois ele havia torcido o pé, motivo pelo qual havia ido para o hospital. Mas ele continuava.. . 

"Eu sou o beijoqueiro! Eu conheço o César Maia! Se eu quiser mando tranferir a enfermeira que me destratou deste hospital! E tu? Tu queres conhecer Portugal? Eu vou te mandar para Portugal para que tu faças um estágio no hospital de Coimbra! Anota aí meu nome, endereço e telefone. Tu vais me ligar daqui a 15 dias para saber se eu já posso te mandar para Portugal. Tu vais, conhece Portugal, fazes um estágio, de repente arranjas até uma namorada por lá! Veja só que beleza..." 
E eu... "não se preocupe, Sr. José. Não quero ir para Portugal no momento. Pode ficar tranquilo" 
"Não! Tu me ligas que depois conversamos. " 
Fui chamar o maqueiro para levá-lo para o Raio X. Quando o maqueiro chegou, junto com um segurança que veio sacaneá-lo que ele também iam ser beijados, o sr. José começou... 
"Não me levem ainda! Óh dr. Thiago, anotas o teu nome num papel e me dê! Eu vou escrever no jornal que o atendimento deste hospital está uma desgraça, que fui maltratado, mas que o único que me tratou como gente, que não me ignorou e que me atendeu dignamente foste tu. Anotas aí teu nome e que és acadêmico para eu não esquecer! 
Após anotar, os maqueiros o levaram. 

Tempos depois eu o vejo deitado numa maca esperando o ortopedista. Vejo que ele está conversando com uma enfermeira que está toda risonha. A enfermeira se afasta um pouco, eu me aproximo e pergunto: 
"Sr. José, está tudo bem? Estão tratando o senhor bem?" 
"Pois sim! Agora já posso elogiar o Sr. e aquela enfermeira ali! Inclusive, acabo de pedi-la em casamento!" 
A enfermeira se aproxima e fala comigo: "Pode uma coisa dessas? Ele quer que eu vá morar com ele!" 
E ele: "Estou dizendo a ela que eu recebo cestas de frutas, verduras e legumes todos os finais de semana lá da feira. Se ela se juntar comigo, pode ficar com tudo" 
A enferneira saiu, risonha, me despedi do "beijoqueiro" e tive que ir embora do plantão. 

Eis que chego em casa, aqui em Petrópolis e comento com meus pais sobre o caso. Meu pai, empolgado, me conta que este senhor era uma celebridade dos anos 80! Era conhecido por driblar todo e qualquer esquema de segurança para beijar políticos, jogadores de futebol, cantores, atores, o papa... conhecido na mídia como "o beijoqueiro" ! 
No google, milhares de citações, páginas, biografia, até um filme/documentá rio editado recentemente. Olha só um exemplo: 
http://prosaico20mg.blogspot.com/2006/02/homenagem-um-beijoqueiro-moda-antiga.html#comments
 
e aqui: http://anos80incriveis.blogspot.com/2010/10/beijoqueiro.html

Eu queria comentar uma coisa, meus amigos: não menosprezem, não façam chacota, não desvalorizem, pacientes com personalidades extravagantes. Não caracterizem como casos psiquiátricos figuras das quais vocês desconhecem o histórico. Tratem simplesmente como tratariam qualquer outro. Minha narrativa resumida foi um retrato de descaso, de falta de capacidade dos que ali estavam de lidar com alguém por acharem que se tratava de mais um velho maluco que estava "enchendo o saco". 




segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sobre a fragilidade da vida

O que nos conecta a este corpo é algo muito sutil. Não vou entrar no mérito que a hora da morte é determinada por algo/alguém superior... não é sobre isso que vou discorrer. E sim sobre a linha tênue que nos mantém vivos. Eu já presenciei algumas mortes. De outras tive notícia. A primeira morte que presenciei foi numa grande emergência do Rio de Janeiro, quando eu era estagiário. Lembro de algumas horas antes, no meio a diversos leitos, ajudá-la a se deitar, pois estava caindo. Horas depois uma amiga me chama... "Thiago... vem cá... tem algo errado...". Nada de pulso. Equipe reunida, foi a primeira vez que revezei com outros para a massagem cardíaca. A noção de tempo se perde, uma hora passa como fossem 10 minutos, e de repente alguém declara que não devemos mais continuar. Formado, presenciei outras mortes em outros hospitais. Madrugadas tensas. E aquela sensação estranha. Recentemente, já como médico, era eu comandando os procedimentos de reanimação. Desfibrilando. E olhando o maldito monitor... por que não volta a bater? Os 40 minutos protocolados estendidos para quase 1 hora e meia... a sala esvaziando... um técnico de enfermagem mais experiente me olha nos olhos e diz: "Thiago, já chega... você fez tudo... até mais do que devia...". O primeiro atestado de óbito. Nada fácil de preencher. Dar a notícia para a família. Sentir a dor como fosse parte deles... responsável. A impotência. A mão que cura nem sempre ressuscita. Noutro caso que não presenciei, um único dia de diarréia matou uma jovem. Sim, diarréia ainda é grande causa de morte, nunca se esqueçam. E agora, neste final de semana, meu cachorro, Draco, fiel companheiro por 13 anos. Ali, em minha presença, ver o fechar dos olhos, o último suspiro... menos de 1 minuto, tão rápido e silencioso, tão tranquila sua passagem de volta às estrelas (Draco é o nome de uma constelação e significa Dragão). Essa é a vida... tão frágil! Num suspiro, basta um último piscar de olhos... e rompe-se a fronteira para o desconhecido. Para o outro lado da vida...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Matador

Situação bizarra que enfrentei uma vez.

Consultório médico...
- Doutor, não vou mentir pra você não... já matei muita gente, já levei muito tiro, já fui preso várias vezes... o último que matei foi um rapaz que passou a mão no peito da amiga da minha filha. Descarreguei a pistola  no infeliz pra ele e todo mundo aprender...
... (15 minutos após longa narrativa de assassinatos)...
- E doutor, quando o senhor precisar, é só me procurar. Quando tiver algum inimigo, algum vizinho que te perturbe, alguém que te roube... é só vir falar comigo, entendeu?

...TENSO...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Acidentes espaciais

O CID-10 é o Código Internacional das Doenças, em sua décima edição. É utilizado para padronizar o nome dos diagnósticos na área de saúde.

Recentemente escrevi um post sobre o CID F44.3, que significa "estado de transe ou possessão"  (http://eremitha.blogspot.com/2010/04/demonios.html).

Hoje achei mais um código interessante. Vamos a ele. E aproveitemos para aprender alguns fatos da Ufologia.

Para quem não sabe, Ufologia é a área do conhecimento que estuda os OVNIS - Objetos Voadores Não Identificados, ou discos voadores, ou naves espaciais, ou UFOs, do inglês Unidentified Flying Objects.
A Ufologia estuda os avistamentos de naves em todo planeta, histórias de abduções (raptos de humanos por alienígenas), contatos imediatos com "seres" de outros planetas... e eventualmente investiga a queda destas naves na Terra. Dois foram os mais conhecidos acidentes, o caso Roswell e o caso Varginha. Em ambos os acidentes as naves e seus tripulantes teriam sido recolhidos por militares, respectivamente nos Estados Unidos e no Brasil, e seus governos mantém sigilo absoluto sobre os acontecimentos, apesar das evidências. Em outra oportunidade discorrerei aqui sobre cada um destes interessantes episódios. Voltemos ao CID-10 por hora...

Cogitemos que eu tenha que "socorrer" um extraterrestre acidentado da queda de sua nave, e tenha que colocar em meu relatório o CID-10 da causa do dano aos tripulantes, o que eu usaria? Incrivelmente, existe uma classificação! Ei-la:

V95.4 - Acidente de nave espacial causando traumatismo a ocupante.

Sim! Isso existe! :-)

domingo, 31 de outubro de 2010

Antibióticos - nova determinação

A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou que a partir de agora a venda de antibióticos só pode ser feita mediante apresentação de receita de controle especial em duas vias. A primeira via fica com o estabelecimento (farmácia, drogaria) e a segunda via é devolvida ao paciente.

Essa norma já existia para medicamentos antidepressivos e antipsicóticos, e faz com que a venda de antibióticos seja feita somente com a receita médica. O paciente não pode comprar por conta própria tais medicamentos, evitando uso indiscriminado ou de forma incorreta dos antibióticos.

Outro detalhe: a receita tem validade de 10 dias. Isso se deve à importância da necessidade de início rápido do tratamento quando prescrito. Para antidepressivos e antipsicóticos a validade é de 30 dias.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Novas diretrizes para Reanimação Cardiopulmonar

A American Heart Association disponibilizou uma versão em português dos principais destaques das novas diretrizes de RCP (Ressuscitação Cardiopulmonar). Elaboradas a partir de consenso do ILCOR (Aliança Internacional dos Comitês de Ressuscitação), as orientações serão publicadas no Brasil em novembro pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.


O documento apresenta as principais alterações nas condutas de suporte básico e avançado de vida (BLS e ACLS), ressuscitação pediátrica (PALS) e neonatal, além de aspectos sobre desfibrilação, AVC (Acidente Vascular Cerebral), síndrome coronariana aguda, primeiros socorros, questões éticas, treinamento e formação de times de ressuscitação.

O texto com os destaques das diretrizes (em português e no formato PDF) está disponível no site da AHA:



(Vi no: http://www.revistaemergencia.com.br/)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Epistaxe

Fato verídico ocorrido no meu último plantão.

Definitivamente eu não sou o médico mais ortodoxo que conheço...
Uma jovem foi ao atendimento de emergência ontem à noite com queixa de 2 episódios de sangramento pelo nariz (chamamos isso de epistaxe). Não estava tendo sangramento no momento.
Sem história de hipertensão, uso de medicamentos, uso de drogas...
Sem anomalias à inspeção visual das narinas.



Expliquei que a encaminharia para um otorrinolaringologista para uma melhor intestigação. Ela me perguntou o que fazer quando o nariz voltasse a sangrar, e quais os prováveis motivos para um sangramento nasal.

Comecei uma pequena palestra. Expliquei que hemorragia nasal é muito frequente devido à intensa vascularização da mucosa nasal (triângulo de Kiesselbach).  Que em 90% dos casos de epistaxe podem ser resolvidos facilmente aplicando-se em ambos os lados do nariz uma pressão firma e contínua acima das narinas, estando o paciente com a cabeça inclinada para frente. Que um otorrino ao identificar o local do sangramento pode utilizar de instrumentos que cauterizam a lesão impedindo novos sangramentos.

Sobre as causas, falei sobre as espontâneas, ocorridas em espirros fortes, crises de tosse, ao assoar o nariz..., os traumatismos auto-inflingidos (cutucar o nariz com o dedo),  fraturas, traumatismos intra-cranianos, hipertensão, causas inflamatórias, inalação de substâncias químicas, uso de cocaína, uso de anticoagulantes, tumores, mudança de pressão (mergulho, viagens aéreas, subir a serra), variação da umidade do ar (meses mais secos), vasculopatias, doenças sanguíneas (hemofilia, púrpura, leucemia, coagulopatias...), e então fiz um silêncio, olhei fundo nos olhos dela e disse:

- "Tem mais uma causa... não sei se eu deveria falar isso, mas eu vou falar. Implante de sondas alienígenas através das narinas."
Seguiu-me mais um instante de silêncio, eu muito sério, e a paciente começou a rir de nersoso e perguntou:
- O senhor está falando sério?
- Claro! Você esteve viajando recentemente...?
- Não! E eu durmo com a janela fechada!
- Ahannn... está vendo? Até você admite a possibilidade de abdução!
- É... não... não acredito nisso... mas pode mesmo ser verdade?
- Calma... vamos fazer uma radiografia. Se tiver algo aparecerá!
- O senhor estuda essas coisas?
- Sim! Estudo! Existem alguns casos no mundo!
- Mas acredita em vida extra-terrestre?
- Claro! Não há mais como contestar a visita de seres de outros planetas! Já sabíamos disso e agora os governos abriram seus arquivos sobre avistamentos confirmados.
- Mas  senhor lê a bíblia, não lê?
(Não entendi o contexto da pergunta, eu confesso...)
- Leio! Fique tranquila. 
- Ahhhh bom...

Solicitei a radiografia de crânio e dos seios da face. Quando a paciente voltou, mostrei a ela:
- Está vendo? Nada de diferente na sua estrutura óssea... e nada de sondas. Ela riu alto e suspirou fundo, aliviada.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

UPA lá lá

UPA - Unidade de Pronto Atendimento.


Não sei se só no Estado do Rio, mas diversas UPAs têm sido inauguradas nas cidade aqui por perto. Uma espécie de pronto socorro, a UPA tem uma estrutura pré-moldada, com construção rápida, aparência bela, moderna e arrojada, toda informatizada... Deixe-me tentar explicar melhor.
Você chega na UPA e é recebido por uma equipe qualificada de profissionais muito bem treinados. Seguranças na porta, atendentes bonitas e educadas que fazem o seu cadastro inicial, gerando uma ficha de atendimento virtual nos computadores. Espera em uma ampla e confortável sala e então passa por uma entrevista com enfermeiros que fazem a classificação de risco. Azul, verde, amarelo e vermelho, segundo a gravidade do problema de saúde. Vermelho geralmente chega de ambulância e vai direto para a sala vermelha, com atendimento de fato para casos gravíssimos. Amarelos para a sala amarela, casos urgentes que precisam também de rapidez no atendimento. Vermelhos e amarelos passam na frente de todos, por isso, ou também por isso, o atendimento na UPA não é por ordem de chegada, mas por ordem de gravidade. Verdes e azuis aguardam mais tempo para serem atendidos na emergência ambulatorial, também por ordem de prioridade do mais grave ao menos grave. A UPA possui sala de medicação, sala de nebulização, sala de sutura... enfim, tudo para o atendimento de urgências e emergências. Teoricamente deveria ter um médico na sala vermelha, um na sala amarela, três clínicos e dois pediatras na emergência ambulatorial. Pois bem...


Sexta passada eu fui dar mais um plantão na UPA. E pasmem, daquela equipe perfeita que eu citei ali em cima que deveria haver, de mais ou menos 7 médicos, só tinha eu! Sim meus caros amigos, só eu! A equipe médica de um homem só! Atendi dezenas de pessoas no ambulatório de emergência, velhinhas infartadas na sala amarela, surto psicótico por uso de drogas, descompensação cardíaca na sala vermelha, suturas e mais suturas de diversos acidentes como de moto, atendi crianças (que os outros clínicos geralmente se negam a atender por não serem pediatras... e trabalhei feito um doido por 24 horas seguidas praticamente sem descanso... Pra quem acha que vida militar é difícil, passar um ano na amazônia como médico... aquilo foi fichinha! Estado de guerra é trabalhar sozinho numa UPA sexta-feira à noite! Verdade seja dita que se levei um serviço de emergência "sozinho" foi porque na verdade a equipe que estava comigo colaborou muito, enfermeiros, técnicos, atendentes, maqueiros, o pessoal da limpeza, a equipe na farmácia... todo mundo sem exceção. Mas juro, teve hora que deu vontade de sair correndo e nunca mais voltar!

Mas sou louco. Amanhã é meu aniversário, e estarei em mais um plantão de 24 horas na UPA-Petrópolis. Não me desejem feliz aniversário. Desejem-me boa sorte!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Arrancando o problema

Espero que os personagens que fazem parte desta história jamais leiam isso... ou que leiam, porque não?
Não revelarei nomes, local, ou data.

Em um plantão de emergência em que participei certa vez, chegou uma menina de uns 10 anos de idade com um alicate de cutícula cravado na sola de seu pé. Ela subiu na cama, não viu o alicate, pisou nele e o objeto penetrou de forma substancial em sua pele. A menina tinha um semblante de dor e medo. O alicate estava muito bem fixado, pendurado na sola do pé.

Se eu tivesse conduzido o caso teria ministrado um ansiolítico para a menina, feito assepsia do pé e do alicate com degermante ou iodo, faria anestesia com lidocaína na região do entorno do ponto de penetração, tentaria, a partir de então, alguma manobra leve para retirada, não conseguindo utilizaria um bisturi para abrir um orifício melhor de saída e então nesta altura teria retirado o alicate. Por fim, talvez daria alguns pontos para fechar o ferimento.

Mas não fui eu que atendi a menina. A médica colocou-a deitada numa maca, segurou o bisturi com a mão e tentou arrancá-lo de imediato com um puxão súbito... e ineficaz, fazendo a pobre garota urrar e chorar de dor. Não satisfeita, a médica continuou puxando e rodando o alicate que permanecia preso no pé da menina!!! Eu então me retirei da sala. Não vi o desfecho do atendimento. Entendam, que não foi por falta de sangue frio que não presenciei o procedimento até o final, e sim por falta de conivência com a metodologia utilizada para tal "abordagem" médica. Quem sou eu para discordar do procedimento da nobre colega... cada médico tem liberdade de ação e responde por suas consequencias, mas então, para que os recursos do hospital se a própria família poderia ter utilizado de mera tração manual? Sério, eu não entendo. E cada vez entendo menos. 

Que o universo me proteja para nunca ser atendido em um serviço de emergência! A não ser por mim mesmo... o que seria algo improvável...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Médico - uma vida de puta

Comecei a dar plantão na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Petrópolis.
Ontem, no meu segundo plantão, atendi certa de 70 pessoas. SETENTA pessoas. SETENTA. Em um dia. Conseguem compreender isso? Eu sozinho... 70 pessoas...
Comecei a atender às 8:00, quando me dei conta eram 4 da tarde e eu tinha perdido o almoço, subi para ir ao banheiro e encontrei na copa uma marmita de comida hiposódica da qual só comi as batatas em 5 minutos e voltei para atender, continuei até uma da manhã, não dormi e continuei atendendo até às 8 da manhã fechando 24 horas de trabalho...

Em homenagem a este momento da minha vida, lembrei de uma comunidade do orkut que participo, e transponho aqui o texto:



Médico - Uma vida de puta! 

Você trabalha em horários estranhos. 
Que nem as putas! 
Te pagam pra fazer o cliente feliz. 
Que nem as putas! 
Seu trabalho sempre vai além do expediente. 
Que nem as putas! 
Seus amigos se distanciam de você, e você só anda com outros iguais a você. 
Que nem as putas! 
Seu chefe tem um lindo carro. 
Que nem as putas! 
Quando vai ao encontro do cliente, você tem de estar sempre apresentável. 
Que nem as putas! 
Mas quando você volta, parece saído do inferno. 
Que nem as putas! 
O cliente quer sempre pagar menos e que você faça maravilhas. 
Que nem as putas! 
Todo dia, ao acordar, você diz: "NÃO VOU PASSAR O RESTO DA VIDA FAZENDO ISSO. 
Que nem as putas! 
Se as coisas dão errado, é sempre culpa sua. 
Que nem as putas! 
Você sempre acaba fazendo serviços de graça para o chefe, os amigos e familiares. 
Que nem as putas! 
Apesar de tudo isso, você trabalha com prazer. 
Que nem as putas! 
Puta merda - você tem certeza de que é um médico mesmo ?

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Sangue de Creutzfekdt Jakob tem poder

Essa semana eu foi doar sangue no Hospital Regional de Tefé.

A primeira etapa foi fazer a "Triagem Clínica do Doador", respondendo um questionário do HEMOAM (Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas), com aquelas perguntas clássicas do tipo "Está alimentado?", "Fez tatuagem?", "Recebeu transfusão...?", e assim por diante.


O ítem 26 me deixou intrigado. Ei-lo exatamente como na ficha:

26) Doença de CREUTZFELDT JAKOB 
(Encefalopatia espongiforme humana e suas variantes) - Doença da VACA LOUCA
A) Tomou hormônio de crescimento de origem humana? (  ) Sim (  ) Não
B) Fez transplante de córnea?  (  ) Sim  (  ) Não
C) Permaneceu no Reino Unido ou na República da Irlanda por mais de seis meses de forma cumulativa após 1980?  (  ) Sim (  ) Não

 
(Retrato falado da "Vaca Louca")

Na hora eu fiquei muito confuso com a pergunta, pois além da moça que estava me entrevistando não conseguir ler a pergunta direito, eu fiquei tentando entender o que o Reino unido e a Irlanda após a década de 80 tinham a ver com a minha doação de sangue. Depois, já em casa, compreendi que a doença da vaca louca tinha mais incidência nestes locais...

Mas fiquei com pena de possíveis indivíduos que utilizaram hormônio de crescimento na mesma época que  fizeram transplante de córnea na Irlanda após terem passado férias no Reino Unido na década de 80. 
Eles jamais poderão doar sangue, coitados.

(Retrato falado do indivíduo que utilizou hormônio de crescimento e fez transplante de córnea na Irlanda na década de 80. Ele não deve doar sangue jamais.)


Se você quer saber mais sobre a doença de CREUTZFELDT JAKOB, visite o link: http://anatpat.unicamp.br/taneuprion.html


"O kuru, descrito em uma tribo na Nova Guiné, é uma forma de demência progressiva associada a ataxia e tremores (kuru, na língua indígena, significa tremor). Os nativos praticavam o canibalismo ritual, sendo a doença transmitida por este modo. O cérebro era particularmente apreciado e reservado às mulheres. A abolição do costume levou à virtual erradicação do kuru. As lesões lembram as da doença de Creutzfeldt-Jakob, com encefalopatia espongiforme predominando no cerebelo e formação de placas de amilóide no tecido nervoso."

O EREMITHA adverte: se você foi à Nova Guiné e comeu cérebro humano, por favor, não doe o seu sangue, ok? Eles não perguntam nada na triagem sobre a Nova Guiné e canibalismo. Um absurdo! ;-)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Médicos versus planos de saúde


Médicos versus planos de saúde
(por Dráuzio Varella)

Médicos que vivem da clínica particular são aves raríssimas. Mais de 97% prestam serviços aos planos de saúde e recebem de R$ 8 a R$ 32,00 por consulta. Em média, R$ 20. Os responsáveis pelos planos de saúde alegam que os avanços tecnológicos encarecem a assistência médica de tal forma que fica impossível aumentar a remuneração sem repassar os custos para os usuários já sobrecarregados. Os sindicatos e os conselhos de medicina desconfiam seriamente de tal justificativa, uma vez que as empresas não lhes permitem acesso às planilhas de custos.
Tempos atrás, a Fipe realizou um levantamento do custo de um consultório-padrão, alugado por R$ 750 num prédio cujo condomínio custasse apenas R$ 150 e que pagasse os seguintes salários: R$ 650 à atendente, R$ 600 a uma auxiliar de enfermagem, R$ 275 à faxineira e R$ 224 ao contador. Somados os encargos sociais (correspondentes a 65% dos salários), os benefícios, as contas de luz, água, gás e telefone, impostos e taxas da prefeitura, gastos com a conservação do imóvel, material de consumo, custos operacionais e aqueles necessários para a realização da atividade profissional, esse consultório-padrão exigiria R$ 5.179,62 por mês para sua manutenção.
Voltemos às consultas, razão de existirem os consultórios médicos. Em princípio, cada consulta pode gerar de zero a um ou mais retornos para trazer os resultados dos exames pedidos. Os técnicos calculam que 50% a 60% das consultas médicas geram retornos pelos quais os convênios e planos de saúde não desembolsam um centavo sequer. Façamos a conta: a R$ 20 em média por consulta, para cobrir os R$ 5.179,62 é preciso atender 258 pessoas por mês. Como cerca de metade delas retorna com os resultados, serão necessários: 258 + 129 = 387 atendimentos mensais unicamente para cobrir as despesas obrigatórias. Como o número médio de dias úteis é de 21,5 por mês, entre consultas e retornos deverão ser atendidas 18 pessoas por dia! Se ele pretender ganhar R$ 5.000 por mês (dos quais serão descontados R$ 1.402 de impostos) para compensar os seis anos de curso universitário em tempo integral pago pela maioria que não tem acesso às universidades públicas, os quatro anos de residência e a necessidade de atualização permanente, precisará atender 36 clientes todos os dias, de segunda a sexta-feira. Ou seja, a média de 4,5 pacientes consultados por hora, num dia de oito horas ininterruptas.
Por isso, os usuários dos planos de saúde se queixam: "Os médicos não examinam mais a gente"; "O médico nem olhou a minha cara, ficou de cabeça baixa preenchendo o pedido de exames enquanto eu falava"; "Minha consulta durou cinco minutos". É possível exercer a profissão com competência nessa velocidade? Com a experiência de quem atende doentes há quase 40 anos, posso garantir-lhes que não é.
O bom exercício da medicina exige, além do exame físico cuidadoso, observação acurada, atenção à história da moléstia, à descrição dos sintomas, aos fatores de melhora e piora, uma análise, ainda que sumária, das condições de vida e da personalidade do paciente. Levando em conta, ainda, que os seres humanos costumam ser pouco objetivos ao relatar seus males, cabe ao profissional orientá-los a fazê-lo com mais precisão para não omitir detalhes fundamentais.
A probabilidade de cometer erros graves aumenta perigosamente quando avaliamos quadros clínicos complexos entre 10 e 15 minutos. O que os empresários dos planos de saúde parecem não enxergar é que, embora consigam mão-de-obra barata - graças à proliferação de faculdades de medicina que privilegiou números em detrimento da qualidade, acabam perdendo dinheiro ao pagar honorários tão insignificantes: médicos que não dispõem de tempo a "perder" com as queixas e o exame físico dos pacientes, pedem exames desnecessários. Tossiu? Raios X de tórax. O resultado veio normal? Tomografia computadorizada.
É mais rápido do que considerar as características do quadro, dar explicações detalhadas e observar a evolução. E tem boa chance de deixar o doente com a impressão de que está sendo cuidado. A economia no preço da consulta resulta em contas astronômicas pagas aos hospitais, onde vão parar os pacientes por falta de diagnóstico precoce, aos laboratórios e serviços de radiologia, cujas redes se expandem a olhos vistos pelas cidades brasileiras.
Por essa razão, os concursos para residência de especialidades que realizam procedimentos e exames subsidiários estão cada vez mais concorridos, enquanto os de clínica e cirurgia são desprestigiados. Aos médicos, que atendem a troco de tão pouco, só resta a alternativa de explicar à população que é tarefa impossível trabalhar nessas condições e pedir descredenciamento em massa dos planos que oferecem remuneração vil.
É mais respeitoso com a medicina procurar outros meios de ganhar a vida do que universalizar o cinismo injustificável do "eles fingem que pagam, a gente finge que atende". O usuário, ao contratar um plano de saúde, deve sempre perguntar quanto receberão por consulta os profissionais cujos nomes constam da lista de conveniados.
Longe de mim desmerecer qualquer tipo de trabalho, mas eu teria medo de ser atendido por um médico que vai receber bem menos do que um encanador cobra para desentupir o banheiro da minha casa. Sinceramente.

Dráuzio Varella

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um dia de House


(House: série de televisão onde um dos personagens, o Dr. House, é um grande diagnosticador de casos médicos que ninguém mais solucionou)

Outro dia entra no meu consultório um militar mancando, risonho, muito simpático, e seguiu-se o seguinte diálogo:

- Tenente, me ajuda! To com muita dor na perna! Eu acho que desloquei minha perna, ela ta fora do lugar!




(Eu) – Onde é a dor?

- Aqui! (Aponta para o meio do glúteo esquerdo) E a dor desce aqui por trás. Tenente! Por favor! Eu desloquei minha perna!

(Eu) – Aposto que o senhor guarda a sua carteira de dinheiro no bolso esquerdo.

- Sim... como sabe?

(Eu) - E aposto que por algum motivo passou algumas horas sentado sobre ela.

- Como o senhor sabe disso? Eu acabei de voltar de uma viagem de 12 horas de barco, e para não roubarem minha carteira, deixei no bolso de trás da calça, e vim sentado nela a viagem toda!

(Eu) – Muito bem! Sua perna não está deslocada. Você comprimiu o seu nervo ciático com a carteira durante a viagem! Por isso a dor!

O paciente começou a rir descontroladamente, aliviado por não ter deslocado a perna, e pasmo com o meu diagnóstico.

(Eu) – Nunca mais sente na sua carteira, Ok?

Prescrevi uma ampola de diclofenaco Intra Muscular (um antiinflamatório).

No dia seguinte o militar volta para me agradecer:

- Tenente! Uma hora depois da injeção a dor sumiu! O senhor tava certo! Olha só! (E batia com a perna no chão enquanto ria de forma muito agradável e amigável)


Eu entro no consultório de minha amiga e pergunto:

(Eu) - Caso clínico: Homem de 38 anos com dor no glúteo esquerdo que irradia para a perna. Qual o diagnóstico?

(Minha amiga) – Não faço a menor idéia...

(Eu) – Compressão pela carteira no bolso! Não é óbvio?

(Minha amiga) – De onde você tirou isso? Eu nunca pensaria nisso! Você virou o House, agora?

Por incrível que pareça, aprendi isso durante uma aula de Kung Fu, com meu saudoso Mestre Anselmo. Lembro dele contar um caso semelhante certa vez. E guardei lá no fundo da memória!

Medicina vai além dos bancos da faculdade!