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sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Tefé em rede nacional

Não sei se todos sabem, mas passei o último ano como médico voluntário no Exército brasileiro na cidade de Tefé, interior do Amazonas. Voltei para minha cidade, Petrópolis há apenas 1 mês, e ainda estou em fase de readaptação à vida fora da "selva". Tenho muito o que escrever sobre essa experiência, e o farei em breve.

O Jornal Nacional está fazendo uma série onde o repórter Ernerto Páglia vai de avião para cidades sorteadas, fazendo matérias curtas, mas muito interessantes sobre a realidade do Brasil. Para minha felicidade e surpresa, a cidade de hoje foi Tefé.



Eu tenho alguns comentários para acrescentar à reportagem. Em Tefé fica a Brigada das Missões, uma das bases militares mais importantes da amazônia, responsável pela proteção daquela região e da soberania brasileira (onde servi). A cidade sofre com a falta de saneamento básico, rede de esgoto quase inesiste, não há indústria, fábricas, ou produção de qualquer coisa na cidade. Nem mesmo plantações ou cultivo de nada. Tudo é muito caro, um requeijão pode custar 8 reais, uma coca-cola 6 reais. Internet, eu pagava 120 reais por mês para velocidade mais lenta que internet discada. Conseguir uma ligação de celular exige cinco, seis tentativas. A luz falta TODO DIA por mais de 2 horas. Uma carta comum ou PAC leva cerca de 30 dias para chegar na cidade. A temperatura média é de 35 graus, todos os dias, e não venta na cidade. Não há coleta regular de lixo, e os urubus estão em grande número pousados nas ruas e nos telhados das casas. Há muito mais o que contar... muito! Prostituição infantil, políticos corruptos... e claro! Como assim a secretária de saúde (que conheci) diz que os médicos estrangeiros (bolivianos, peruanos, sem registro em Tefé) salvam vidas? Eles estão ilegais no Brasil, não têm permissão para clinicar, não possuem CRM, e prescrevem medicações absurdas que não se relacionam com as doenças presentes nos pacientes, causando terríveis iatrogenias! Cansei de corrigir prescrições absurdamente erradas feitas por eles! Condutas inexistentes! Diagnósticos fantásticos! Quando cheguei em Tefé ouvi do secretário de saúde anterior que ele preferia contratar os médicos sem registro do que nós (médicos do exército com registro) pois saía mais barato. E quando eu atendia GRATUITAMENTE nos fundos de uma igreja da cidade, houve pressão de políticos para com o líder comunitário com quem realizávamos o trabalho, para que parássemos de atender de graça pois isso "ia contra o atendimento dos hospitais e clínicas da cidade". Essa é parte da realidade do interior do amazonas, meus amigos. Apenas uma parte...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

De perto, ninguém é normal

Esta semana estão ocorrendo em todo o Brasil as Conferências Municipais de Saúde Mental, que levarão propostas para as Conferências Estaduais e depois para a Federal.

A reforma psiquiátrica continua em pleno vapor, e eu estou tendo a honra de participar como médico e representante do Exército na conferência da cidade de Tefé, que mesmo sendo interior do Amazonas e uma das cidades isoladas deste país, dá exemplo e possui um CAPS com equipe de saúde mental capacitada, trazendo o melhor do tratamento psiquiátrico, psicológico e demais ações intersetoriais que colocam em prática a integralidade, conceito fundamental do SUS.




OBS - Estou sumido do blog, mas ainda hoje prometo um post sobre possessão demoníaca! Até!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Botos


Quando cheguei na Amazônia, uma das coisas que mais me fascinou foi a aparição dos botos nos rios da região. Do nada, você está olhando para o rio, de repente aparecem um ou vários botos, e rapidamente afundam e somem. Pequeninos, grandes, cinzas ou rosas. O coração sempre bate mais forte, dá uma emoção bacana ver um boto, e fotografá-los é um desafio, pois quando você aperta a botão eles já afundaram.

Eu já consegui bater algumas fotos dos botos aqui por perto de Tefé. Eis uma delas com dois botos:


Acho que todos já ouviram falar de uma das lendas sobre os botos.
Uma delas diz que os botos transformam-se em homens e engravidam as mulheres. Depois voltam para o rio e nunca mais aparecem. Então, filhos de mães solteiras são possivelmente filhos do boto. De fato comentam essa história por aqui. O boto acaba sendo um ótimo álibi para as moças que engravidaram sem querer e não têm como justificar para as famílias o fato. Os antigos realmente acreditam nisso. Ouvi de uma paciente outro dia que a avó dela a proíbe de ir para a beira do rio sozinha para não ser "levada" pelo boto. Alguns relatos dizem que o boto, quando transformado em homem, se veste de branco e usa um chapéu para esconder aquela "barbatana". Cuidado com o boto, meninas.

Outra história que já escutei de diversas pessoas, diz respeito à diferença entre o boto cinza e o boto rosa. O cinza é menor, o rosa é grandão. Não sei falar nada sobre serem ou não de espécies (ou sei-lá-o-que) diferentes. Mas a história é sempre a mesma: os botos cinza são bonzinhos, salvam as pessoas que estão se afogando, ajudam os pescadores, nadam junto com as embarcações. Eu ouvi de um senhor, de uma espécie de tribo de índios na região das Missões aqui em Tefé, que uma criança da família dele, certa vez, sobreviveu ao cair de um barco pois um boto cinza o colocou no dorso e levou até a margem. Em compensação os botos rosas são maus, muito maus, e as pessoas têm verdadeiro ódio dos botos rosa. Dizem que eles derrubam as embarcações, e afogam as pessoas levando-as para o fundo do rio! Achei muita graça nisto, pois a Xuxa fez justamente uma música para os botos do mau: "boto rosa quem não sonha descobrir os seus segredos.... eô, eô, boto rosaaaa". Imaginem só... rs.

Mais uma: o aparelho genital, masculino e feminino, dos botos, seriam semelhantes aos dos humanos. Por este motivo, as botas estão sujeitas a estupros por partes de humanos zoófilos.

E outra: a carne dos botos não costuma ser comida. Dizem que ela é avermelhada e tem um cheiro muito forte, sendo portanto pouco apreciada para ingestão.


E para terminar: as mulheres que andam com um patuá que contenha em seu interior o órgão genital feminino de uma bota, torna-se irresistível para os homens. Os homens que andam com um dente de boto na carteira, tornam-se irresistíveis para as mulheres (ainda bem que é com um dente... rs). Ontem, acabei encontrando um hippie aqui em Tefé que me vendeu um dente de boto por 20 reais. Vamos ver se essa parte da lenda é realidade...!

sábado, 6 de março de 2010

Cupuaçu e açaí

Acabei de voltar de um almoço com o pessoal do Posto Médico.
Prato principal: tambaqui na brasa.
Mas o assunto deste post será sobre as sobremesas...

(clique na foto para ampliar - cupuaçu "in natura", no meio da floresta amazônica. Notem meu suor, tamanha a umidade e calor no meio da mata. A casca do cupuaçu é dura, deve ser quebrada para encontrar no interior uma centena de sementes envoltas por uma espécie de creme bastante amargo, utilizado na região para fazer o creme de cupuaçu, suco, sorvete, bombom, e outros doces)

- Tenente, tem creme de "cupu" (cupuaçu) e açaí! o senhor já provou?
- (eu) Já! O creme é uma delícia, mas o açaí só provei o que eles fazem lá no Rio.
(gargalhada geral)
- Aquilo não é açaí, Tenente! Açaí é esse aqui, que a gente tira direto da árvore (me mostra o braço todo ralado), sem nenhuma mistura para engrossar ou para te enganar. Mas tem uma coisa. Ou come o cupuaçu ou come o açaí!
- (eu) Por que? Tem pouco?
(gargalhada geral)
- Não... Se comer os dois o senhor vai passar mal!
- (eu) Diarréia?
- Não! Vai vomitar muito! Ou então vai ter muita dor no estômago!
- (eu) Mas eu quero provar os dois! VOU provar os dois!
- O senhor que sabe... mas te avisamos!

O creme de cupuaçu estava uma delícia. Eles batem a poupa da fruta do cupuaçu com creme de leite e leite condensado e põe pra gelar. Bom mesmo! Parece uma mousse!

O açaí estava num panelão enorme, não sei como se prepara, mas sei que eles pegam as frutinhas que são durinhas, deixam de molho, moem ou fazem sei lá o que (vou pesquisar) e depois coam asando um pano, e o que se come é o caldo, que eles dizem que é como um vinho do açaí. Comi uma xícara, com um pouco de açúcar e um punhado de tapioca (uns flocos crocantes meio sem gosto) misturada ao açaí.

Sei que todo mundo ficou me olhando, e de tempos em tempos perguntavam "tá bem? Tem certeza? Quero ver amanhã!"

Bom, até agora... tá indo tudo bem... rs! Deve ser alguma superstição como comer manga com leite...!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Preguiça!



Há poucas horas, agora à noite, fui correr. O percurso que faço leva cerca de 1 hora ida e volta. Saio de casa pela “Estrada do Aeroporto”, passo pela 16a Brigada de Infantaria de Selva, onde fica o Posto Médico onde trabalho, daí continuo pela estrada de asfalto até o pequeno aeroporto de Tefé, que é o extremo da cidade, faço meia volta e retorno pra casa. Neste último trecho, com floresta Amazônica de um lado e floreta Amazônica do outro, o que nos faz companhia são os barulhos dos sapos e pererecas, uns sons bizarros que não faço idéia a que bicho pertencem, revoadas de mariposas, morcegos, corujas... e há alguns meses as dezenas de milhares de bezouros, que agora tiraram férias e deixaram a cidade para as nuvens de grilos, que são um tormento quando passamos em cada poste de luz. Respirar de boca aberta é certeza de engolir um deles!

Para minha surpresa, já no trecho perto do aeroporto, tive a felicidade de encontrar uma PREGUIÇA atravessando a rua! Linda! Incrivelmente linda! Uma das cenas mais emocionantes que já presenciei aqui na Amazônia. Cheguei muito perto, e ela simplesmente me ignorou, e continuou, lentamente a engatinhar até o outro lado. Subiu calmamente o meio fio, atravessou a calçada e se embrenhou novamente na selva.

Com mais ou menos 1 metro de comprimento, peluda, de cor amarronzada, braços longos com unhas ou garras muito cumpridas, rosto simpático, aparentava uma miniatura de um pé grande daqueles simpáticos dos filmes da sessão da tarde! Dá vontade de trazer pra casa! Incrível! Belíssimo! Parece um bicho de pelúcia cumprido e sorridente andando em câmera lenta.

Minha única raiva foi não estar com nenhuma máquina fotográfica na hora! Mas achei uma foto no google mais ou menos parecida, na mesma situação:


Pesquisei na Wikipedia algumas informações a respeito da preguiça. Detalhe, que segundo o texto, a preguiça só desce das árvores a cada 7 dias para defecar! Ou seja, eu presenciei o exato momento em que a preguiça estava indo ao banheiro!!!! hahahaha!

Sobre a preguiça:

A preguiça, ou bicho-preguiça é um mamífero da ordem Xenarthra, a mesma dos tatus e tamanduás, pertencente à família Bradypodidae (preguiças com três dedos) ou Megalonychidae (preguiças com dois dedos). (NÃO CONTEI OS DEDOS DELA!)

Todos os dedos têm garras longas pelas quais a preguiça se pendura aos galhos das árvores, com o dorso para baixo. Seu nome advém do metabolismo muito lento do seu organismo, responsável pelos seus movimentos extremamente lentos. É um animal de pelos longos, que vive na copa das árvores de florestas tropicais desde a América Central até o norte da Argentina. Na Mata Atlântica, o animal se alimenta dos frutos da Cecropia (embaúba, conhecida por isto como árvore-da-preguiça)

De hábitos solitátios, a preguiça tem como defesa sua camuflagem e suas garras. Para se alimentar, a Preguiça utiliza-se de "dentes" que se apresentam em forma de uma pequena serra. Herbívoro, tem hábitos alimentares restritos, o que torna difícil sua manutenção em cativeiro. Dorme cerca de 14 horas por dia, também pendurada nas árvores. Na reprodução dá apenas uma cria, e apenas a fêmea cuida do filhote. Reproduz-se, como tudo que faz, na copa das árvores. Raramente desce ao chão, apenas aproximadamente a cada sete dias para fazer as suas necessidades fisiológicas. Urinam e defecam apenas a cada 7 ou 8 dias, sempre no chão. O seu principal predador é a onça-pintada. Apesar de lentas são exímias nadadoras.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Louva-a-deus


Eu nunca tinha visto, ou melhor, tocado em um louva-a-deus. Dócil (posso usar esse adjetivo a respeito de um inseto?) e extremamente cativante. Dá vontade de levar para casa como bicho de estimação! Ele anda tranqüilamente pela sua mão, articula a cabeça acompanhando o seu movimento, limpa as patinhas com a "boca" de tempos em tempos. Achei realmente incrível!

Pesquisei as informações a seguir nestes sites: Wikipédia e Saúde animal:

NOME COMUM: Louva-a-Deus ou Cavalinho-de-Deus
NOME EM INGLÊS: Praying Mantis
NOME CIENTÍFICO: Mantis religiosa
FILO: Arthorpoda
LASSE: Insecta
ORDEM: Orthoptera
FAMÍLIA: Mantidae
COMPRIMENTO: (fêmea): Cerca de 5 cm
CABEÇA: triangular, que se movimenta facilmente
ANTENAS: curtas e delgadas
COR: verde ou castanho

Há cerca de 2000 espécies de louva-a-deus, a maioria das quais em ambiente tropical e subtropical. Seu nome popular decorre do fato de que, quando está pousado, o inseto lembra uma pessoa orando.

O Louvadeus é um inseto carnívoro, ou seja, ele se alimenta de outros insetos como mosquitos. Ele tem olhos muito desenvolvidos e por isso enxerga muito bem, o que ajuda quando precisa caçar para se alimentar.


Os louva-a-deus são insetos relativamente grandes, de cabeça triangular, tórax estreito com pronoto e abdómem bem desenvolvido. São predadores agressivos que caçam principalmente moscas e afídios. A caça é feita em geral de emboscada, facilitada pelas capacidades de camuflagem do louva-a-deus. Como não possuem veneno, os louva-a-deus contam com as suas pernas anteriores que são raptatórias, ou seja, modificadas como garras, para segurar a presa enquanto é consumida. A sua voracidade leva a que sejam considerados muito bem vindos pelos amantes da jardinagem e agricultura biológica, uma vez que, na ausência de pesticidas, são um fator importante no controlo de pragas de jardim. Na América do Norteocorrem apenas três espécies de louva-a-deus, duas das quais introduzidas no início do século XX para este mesmo efeito.

Apesar de serem muito diferentes, os louvadeus são parentes das baratas e dos grilos.

O voo do louva-a-deus é algo impressionante. Copia muito bem um voo de um caça de combate. Ele também tem a capacidade de desviar de ataques de morcegos em pleno voo executando mergulhos.

O louva-a-deus é um animal muito venerado na China, tendo inclusive estilos de Kung Fu baseados em seus movimentos.


sábado, 16 de janeiro de 2010

Taperebá



Taperebá na Amazônia de onde provavelmente é originaria, cajá para os nordestinos, cajá-mirim no Sul.

Fruta de sabor agradável bem como o arom
a. É ligeiramente azedinha. Sua polpa é utilizada na preparação de sucos, sorvetes, licores e doces. Tem um tamanho um pouco maior do que uma azeitona.

(Clique nas fotos para ampliar)

Valor calórico 70 kcalVitamina B1 0,08 mg
Umidade 82,70 g
Vitamina B2 0,06 mg
Proteínas 0,80 g
Niacina 0,50 mgFibra alimentar 1,00 g
Vitamina C 28,00 mg
Cálcio 26,00 mg pH 2,90
Fósforo 31,00 mg Brix 8,50 %
Ferro 2,20 mg






Enquanto isso em em algum lugar no meio da selva amazônica:
Chove torrencialmente em Tefé...
A luz acabou por mais de 4 horas hoje cedo, e neste instante (7 da noite), a luz está estranha... nem o ar-condicionado tem força pra ligar...


quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Pacu


Passei mais uma vez na senhorinha da esquina que vende os peixes na brasa. O esquema ali é o seguinte: o marido passa o dia pescando. De noite, ela vai pra fora de casa, coloca a churrasqueira e vende as peixes na brasa. Uma mão na roda para mim!

Peixe do dia: PACU.
Preço que paguei por um prato de arroz + 1 pacu na brasa: R$ 2,00



Carne saborosa, espinhas longas com pouco risco do degustador se engasgar! Diferentemente do bodó que se come com tripas e tudo, o pacu veio limpinho. Parece uma piranha. Acho que 2 seriam melhor do que só um para satisfazer a fome de uma pessoa. Aprovadíssimo!


(Notem o meu "legal" aprovando o peixe... rs)

Vamos ao google, conhecer mais sobre o pacu ("fonte 1" e "fonte 2"):

Pacu é o nome geral dado a várias espécies de peixes caracídeos da subfamília Serrasalminae, que também inclui as piranhas.

São típicos da Bacia Amazônica, Araguaia-Tocantins, Prata e São Francisco, onde algumas espécies serão encontradas em rios, lagos e igapós, e outras em corredeiras e pedrais, alimentando-se de frutos, sementes, algas e também de crustáceos e moluscos.

Atinge 15 kg de peso, comum até 8 kg. São praticadas duas formas diferentes de pesca: na vara de bambu, fisgada com frutos (tucum, laranjinha ou genipapo) ou pesca apoitada com isca de caranguejo.

Tanto os do gênero Metynnis (21 espécies), quanto os do gênero Mylossoma (5 espécies) apresentam o corpo alto e comprimido lateralmente em forma arredondada ou ovalada, coberto de pequenas escamas. A cabeça e a boca dotada de fortes dentes molariformes dispostos em uma ou duas fileiras, são pequenas e as nadadeiras dorsal e anal estão situadas na parte posterior do corpo. A coloração depende de cada espécie e muitas vezes da água onde vivem. Espécies como o Pacu-borracha, apresentam manchas avermelhadas pelo corpo.


sábado, 9 de janeiro de 2010

Bodó


Agora há pouco eu olho pela minha janela e vejo, na esquina, uma mulher fazendo peixes numa churrasqueira.


Fui até lá:
"Quanto custa?"
"Dois reais"
"É bagre?"
"A gente chama de BODÓ"


Comprei um...!

Levei um tempão tentando entender por onde começaria a comer. Tentei abrir a cabeça e não consegui. Fiz uma incisão na barriga, e encontrei um monte de "sei-lá-o-que" amarelado, parecendo ovas, bolinhas estranhas. Percebi que as visceras não haviam sido limpas. Mas... guerreiro de selva... comida é comida! E tem peixe que, por aqui, se come por inteiro, e resolvi arriscar.

(Clique para ampliar)

A consistência meio estranha, o gosto de bom para amargo algumas vezes, até depois encontrar a carne só pela área da cauda. Pouca carne, mas até que gostosa.

(Clique para ampliar)

Depois que comi, fiquei cismado de ter comido aquilo e vim pra net, pesquisar no oráculo (google) sobre o tal Bodó. Achei pouca coisa, o melhor numa página do INPA (clique aqui, recomendo a leitura do texto como um todo). Separo as melhores partes para vocês:

- Considerado “o patinho feio” na preferência dos consumidores e pescadores, o Liposarcus pardalis, é conhecido popularmente como acari-bodó
- O acari-bodó é um peixe típico do Amazonas, pois ele não é encontrado em nenhum outro lugar do país.
- Faz parte da culinária cabocla por ter uma carne saborosa e costuma ser apreciado em forma de calderada, assado ou na forma de farinha de peixe, também conhecida como farinha de piracuí.
- Apesar de ser bastante conhecido pela população, ele é secundário na preferência dos pescadores... comparado às demais espécies de peixes amazônicos.
-Eles devem ser consumidos imediatamente após a morte, devido ao rápido processo de deterioração e ao odor insuportável que provocam.
- A causa do mau odor do acari-bodó após a morte: foi constatado que as enzimas fabricadas pelo hepatopâncreas (órgão responsável pela liberação das enzimas do trato digestivo) na zona de transição entre o intestino e o estômago, onde se inicia a degeneração, são as vilãs do processo. Outros peixes também possuem o hepatopâncreas, porém eles não liberam as enzimas com a mesma intensidade, se considerado o mesmo período de tempo, após a morte.
- Após ser pescado ele ainda consegue viver fora d'água devido ao seu estômago, que, ao longo dos séculos, se especializou como um sistema respiratório acessório.
- O correto é manter o peixe entre camadas de gelo, sem as vísceras. Dessa forma, ele chega a durar doze dias, enquanto que se comercializado na forma tradicional estraga em questões de horas.
- O hidrolizado protéico é indicado para o consumo de pessoas que tiveram queimaduras de segundo e/ou terceiro graus pelo corpo e também por pacientes hospitalizados que precisam ser alimentados por sondas, já que a substância é rica em aminoácidos e peptídeos que ajudam na recuperação.
- Há o mito de que o acari-bodó alimenta-se de fezes. No entanto, segundo os testes de coliformes fecais realizados, essa crendice popular não foi confirmada. Durante os trabalhos, o pesquisador conta que fez diversas entrevistas. Em uma delas, um entrevistado explicou como esse boato transformou-se em “verdade”. “Havia dois pescadores, eles estavam com a canoa repleta de peixes. Um deles tinha pescado somente acari-bodó. Para boicotar o concorrente, o que tinha pescado outro tipo de peixe espalhou que o bodó alimentava-se de fezes e o boato ganhou a boca do povo”, explicou.
- Existem várias outras histórias referentes ao bodó. Entre elas, o pesquisador afirma que há pessoas que criam o peixe dentro do próprio banheiro.
- Na tradição indígena há relatos que contam que o bodó vira sapo após perder a calda.
- Para os mais religiosos, o peixe é considerado o sapato do diabo devido à sua aparência nada agradável.
- “Se alguém quiser ter uma animada conversar com um caboclo da região é só falar sobre o bodó. Ele é cheio de mitos, além de ser considerado um fator de identidade cultural do povo”.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

18 graus





Hoje fui cortar cabelo. Em Tefé o dia amanheceu nublado, choveu um pouco de tarde, mas ainda assim estava um dia quente.




(Barbeiro) - Tá friozinho hoje, né?
(Eu) - ...
(Barbeiro) - Sabia que há 10 anos mais ou menos, teve um dia que fez 18 graus aqui em Tefé? Todo mundo ficou tremendo!
(Eu) - ...!


18 graus? Rs...
Minha cidade natal, Petrópolis, deve fazer isso quase toda noite! Rs.
Hoje descobri que 18 graus é o super frio da região próxima ao equador!
E isso mostra o aquecimento global! Há mais de 10 anos a temperatura não desce consideravelmente por aqui. Pelo menos segundo o meu barbeiro!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Indo para Tefé


No dia 23 de setembro viemos para Tefé. Dentre as possibilidades para vir tínhamos ao menos 3. Avião, com custo aproximado de 500 reais, creio eu que seja um bimotor, e cuja viagem dura cerca de 2 horas. Barco, tipo um navio, que sobre o rio em aproximadamente 45 horas, onde pode-se comprar uma cabine, acho que por mais ou menos uns 300 ou 400 reais, ou levar a própria rede e pendurar em algum canto do barco, por algo em torno de 50 ou 80 reais. A terceira opção e a que escolhemos foi a lancha “ajato”, que chega em Tefé após 15 horas, com direito a almoço e TV à bordo.

Saímos de Manaus às 7 da manhã. Dormi quase que a viagem toda. Acordava de tempos em tempos para ver as maravilhas da paisagem amazônica nas margens do rio. A viagem foi mais ou menos confortável, o calor acaba sendo a parte mais desagradável. Imagine um ônibus, desses de excursão... é mais ou menos isso. As pessoas todas da região, muito simpáticas, puxando assunto, contando coisas, perguntando bastante. São todas muito menos desconfiadas do que no Rio, e mais dispostas a conversar. A comida na hora do almoço era uma caldeirada de peixe, bem apimentada, só para aumentar o calor!


O por do sol, magnífico, marcava a proximidade de nosso destino. Após longas horas, e muita floresta, chegávamos à uma pequena cidade. Já era noite e avistamos Tefé, e neste momento o coração bateu forte e apreensivo, pois estaríamos ali, relativamente isolados pelo próximo ano.


A lancha parou em uma espécie de porto flutuante, meio improvisada, onde várias pessoas aguardavam seus amigos e parentes. Um Major Médico nos aguardava para nos receber e dar as boas vindas. Deste “porto” à praia, uma tábua, algo bem improvisado, de causar impacto aos mais desavisados. Na praia, a areia branca e fina. Andamos até a rua asfaltada mais próxima, e fomos levados à casa do Major para um lanche, instruções e depois ao Hotel de Transito do Exército para pernoitarmos. O calor intenso foi então abrandado pelo ar condicionado do quarto do hotel, onde tivemos nossa merecida noite de sono.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

AMAZÔNIA - parte 5

Manaus, em resumo.


Fomos muito bem recebidos em Manaus. Destaco a figura da Tenente Socorro como a principal responsável por nossa boa estadia por lá.


Manaus é uma cidade com a mesma estrutura que Rio ou São Paulo. Grandes avenidas, lojas de todas as principais marcas, grandes supermercados. Os shoppings são atrações a parte, muito bem projetados, suas arquiteturas derrubam os antiquados shoppings do Rio. Um deles tem até uma espécie de estufa com um pedaço de floresta dentro. Lojas nos shoppings vendem eletrônicos com maior variedade e melhor preço que no Rio. Apesar disso já não existe a "zona franca de Manaus". Os próprios habitantes se referem a ela como "zona fraca de Manaus". Em um dos dias me perdi entrando em um ônibus errado e no percurso para a zona industrial vi áreas gigantescas das fábricas, que ainda permanecem por lá, mas a venda de seus produtos acaba saindo pelo mesmo preço que em qualquer lugar do Brasil.


O turismo que tive oportunidade de fazer, conheci o Teatro Amazônas, com bela arquitetura e uma iluminação incrível à noite (imagem ao lado), casas de sucos com frutas que eu pouco ou não conhecia (comento sobre os sucos em outra oportunidade), o porto (de onde fiz fotos belíssimas), o mercado popular em frente ao porto, o centro da cidade, algumas igrejas... e talvez outros lugares que não me recordo agora.



Sobre o ecoturismo, passei por duas experiências interessantíssimas. A primeira dela foi pegar, junto com meus amigos médicos-militares, um barco e seguir até o encontro dos rios Negro e Solimões. Um passeio inesquecível, tendo em vista a divisão nítida do encontro das duas águas, uma mais barrenta e a outra mais escura, e em segundo lugar porque tivemos a rara oportunidade de mergulharmos ali, no encontro dos dois rios, e notar a diferença até mesmo na temperatura das duas partes! Diz o senhor que nos levou de barco que mergulhar ali dá "força"! Clicando na imagem dá para ver maior. Sou o da extrema esquerda.


Em outra oportunidade saímos em busca de jacarés. Nosso barco, em plana noite, embrenhou-se na floresta amazônica em um passeio inacreditável dentro de caminhos fluviais que adentravam a selva. Os sons dos animais, aves e insetos da floresta foram a sinfonia para a aventura de iluminar ao longe os olhos dos jacarés, no breu total e ir de encontro a eles na tentativa de capturas algum, com as mãos, para bater fotos e devolvê-lo à natureza. Me senti no Globo Reporter! Rs.






Na "orla" do rio, tem bares, pizzaria, comidas típicas.... Muitos bares e boates pela cidade toda. Não faltam opções de lazer.


Desvantagens de Manaus: o preço do taxi, onde uma corridinha sai por 30 reais ou mais (ah... e tudo deve ser negociado, nunca se esqueçam). Fácil fácil os taxistas te oferecem a corrida por um valor fechado, sem ligar o taxímetro, quando na realidade sairia mais barato se o taxímetro tivesse ficado ligado! Cuidado.
E o calor. Todo dia faz 40, 42 graus... um terror.

Enfim, eu recomendo Manaus turisticamente.


Enquanto isso, minha aventura militar continua em próximos capítulos!


SELVA!


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

AMAZÔNIA – parte 4

Primeiro dia em Manaus, 17/09/09

2:22 hora local - 3:22 no Rio de Janeiro

Para chegar ao aeroporto do Galeão no Rio, saindo de Niterói, pegamos um engarrafamento infernal por conta de congestionamento na Av. Brasil. Quase perco o vôo! Já no aeroporto, minha mala excedeu em 12 Kg o peso recomendado de 23 kg. Paguei 135 reais de excesso de bagagem. A mulher do guichê perguntou: “por que todos vocês estão com excesso de bagagem”? A resposta foi muito simples: passar um ano longe de casa e colocar tudo o que será preciso em uma única mala não é nada fácil! A espada de oficial também foi despachada. Despedimo-nos de nossas famílias e embarcamos. Minha bagagem de mão foi considerada suspeita. Chamaram um rapaz que colocou um par de luvas e começou a revistar minha pasta em busca de “algo parecido com uma gaita” que foi visto no “raio X”. Tudo da pasta retirado, nada foi encontrado. “Deve ter sido sobreposição de imagem”. Vai entender.

Vôo tranqüilo, apesar do pouco espaço à bordo. De lanche, um copo de refrigerante, um mini bolinho e um mini saquinho de biscoitos salgados. Muito escasso! Uma das aeromoças, belíssima, não deixou ninguém a fotografar dizendo que poderia ser demitida. Exatas 4 horas de vôo até Manaus. Uma hora à menos no fuso horário aqui. Temperatura em plena madrugada em torno de 27 graus. Fomos muito bem recebidos por um Major muito simpático. Fomos trazidos de ônibus do exército para o Quartel onde ficaremos alojados temporariamente. No caminho foi-nos mostrado a margem do rio Negro, que possui uma calçada nos mesmos padrões das calçadas de Copacabana, “como se praia fosse”. Mas não foi possível ver o rio, só o calçadão. No alojamento do exército, beliches, ar condicionado e televisão. Já fomos avisados que as regiões estão precisando urgentemente da chegada dos médicos. Ficaremos o menor tempo possível em Manaus, apenas o necessário para vacinas e documentações, e iremos para Tefé em avião da FAB o mais breve possível.

(Postando de uma sorveteria com internet, com pouco tempo e pouca bateria...)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Perigos da selva



Hoje cedo eu conversava com uma conhecida e comentei que provavelmente farei nas próximas semanas, em Manaus ou em Tefé (AM) o curso de adaptação/sobrevivência na selva. Ela então, com cara de horror, comentou:

"Meu Deus! E se você encontrar com uma cobra, um leão ou um tigre, o que você faz!"

Eu preferi permanecer em silêncio...

Calma leão. Se eu te encontrar na Amazônia te mando de volta pra África!


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Promessa



Parto neste dia 16/09/09 para a Amazônia!
À minha família, aos meus amigos, à minha terra natal, um trecho da Canção do Expedidionário.


"Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá,
Sem que traga por divisa
Este 'V' que simboliza
A vitória que virá..."


domingo, 13 de setembro de 2009

AMAZÔNIA – parte 3

CPOR-RJ

No dia 3 de agosto de 2009 começou o meu treinamento militar no CPOR-RJ (Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva do Rio de Janeiro). Iniciamos o EAS (Estágio de Adaptação e Serviço), em uma jornada de aproximadamente 40 dias, onde 27 médicos, todos voluntários, sendo 5 mulheres e 22 homens, destes 9 voluntários para a região Amazônica e o restante para hospitais e policlínicas do Rio de Janeiro. Eu acordava todos os dias às 4:30 da manhã para fazer a barba, tomar banho, arrumar minha roupa e sair de Niterói em direção ao quartel localizado na Av. Brasil na altura de Bonsucesso. Instruções teóricas sobre leis militares, funcionamento de sua estrutura, hinos, cânticos, brados, ordem unida (como marchar, toques de corneta, comandos para o pelotão), instrução de tiro com pistola, uso de bússola para localização e progressão... enfim, muita informação para pouco tempo! Sem contar na prática diária de TFM (treinamento físico militar), que além de possuir um padrão de exercícios, fazíamos corridas “até o infinito e além” entoando brados e cânticos vibrantes. Na primeira semana meu corpo doía inteiro e o cansaço intenso fazia com que eu alternasse as horas no quartel com horas dormindo em casa. Com o tempo fui me acostumando ao ritmo, e os novos hábitos foram se incorporando no meu dia a dia. Tudo é costume e prática, meus caros. Ou como dizem por lá: só a prática exaustiva e a repetição leva à perfeição”!

Na terceira semana de treinamento passamos pelo treinamento acampados na Vila Militar. Aprendemos noções de sobrevivência no campo, transpor percursos de água, atravessar território inimigo de dia e à noite rastejando em solo, lama, lago, fizemos rapel, pista de cordas sobre o lago, percursos noturnos na mata com bússola... e outras tantas atividades de treinamento. A última semana foi de treinamento intenso para a formatura, que ocorreu no dia 11 de setembro de 2009, onde fomos declarados Aspirantes a Oficiais da Reserva, recebemos nossa espada de oficial e fizemos o juramento. A experiência destes últimos 40 dias foi inesquecível, tanto pelo treinamento em si, pela equipe de instrutores extremamente dedicada, quanto pelas pessoas que ali encontrei. Sofremos junto sob o sol, a chuva, o frio, a fome, o cansaço, mas nos divertimos muito, rimos bastante e levaremos todos na memórias as lembranças do inicio do nosso oficialato. BRASIL ACIMA DE TUDO!

Semana que vem embarcaremos para Manaus. Próxima etapa: treinamento na SELVA!


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

AMAZÔNIA – parte 2



BUROCRACIAS


Após minha decisão de servir como médico por um ano na Amazônia, seguiu-se a parte chata do processo: efetuar o voluntariado. Com inúmeras idas e vindas à junta de alistamento de Niterói (deveria ser esta devido ao fato de eu ter feito faculdade nesta cidade), consegui trocar o meu CDI (Certificado de Dispensa de Incorporação, ou algo do gênero) por um CAM (Certificado de alistamento militar). Paciência, fotos 3x4 e muitas cópias de documentos foram necessárias a partir de então. Depois todo o contato passou a ser feito diretamente no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, em um departamento de Seleção Especial. Mais documentos, muitos cadastros e então a lista com diversas cidades no Amazonas para escolher passar um ano. Diversas cidades que eu nunca havia ouvido falar nem sabia informações nenhuma. Com uma ligeira pesquisa no Google e conversando com algumas pessoas dei um tiro meio na penumbra e escolhi a cidade para onde iria: Tefé, no Amazonas, que fica a uma distância de mais ou menos 36 horas de barco de Manaus subindo o rio Solimões. Todos me perguntam: “mas por que Tefé”? Na verdade não tenho essa resposta. Mas vou para Tefé, e seja o que Deus quiser! Todos os voluntários para as cidades na Amazônia, uns 10 mais ou menos, recebemos uma lista com o fardamento que deveríamos adquirir o mais breve possíveis pois embarcaríamos para Manaus no dia 06 de agosto para começarmos lá o nosso treinamento. Foi uma corrida para conseguir comprar todos os itens. Calça, camisa, gandola e gorro camuflados, coturno de selva, roupa para educação física, distintivos, emblemas... enfim, uma quantia considerável em roupas foi gasta nesta etapa, com o intuito de estar pronto o mais breve possível para o embarque. Comprei quase tudo em lojas de artigos militares que ficam perto do “Distrito Naval” no centro do Rio. Minha vida virou de pernas para o ar nesta etapa, afinal, eu tinha 2 semanas para largar tudo e passar um ano longe de casa. E tudo que eu poderia levar deveria caber em uma mala! Empacotei meu quarto, joguei muita coisa fora, deixei tudo acertado para só voltar daqui a um ano. Tive festa de despedida, dei adeus a muitos, abandonei meu plantão na clínica psiquiátrica onde trabalhava e estava à espera do dia marcado...

Foi quando na sexta-feira dia 31, às 8:30 da noite, o “Exército” liga para a minha casa solicitando que no dia 3 de agosto eu me apresentasse no CPOR do Rio de Janeiro às 7 da manhã. E assim eu fiz... (continua)

domingo, 9 de agosto de 2009

AMAZÔNIA – parte 1



A PALESTRA DAS FORÇAS ARMADAS


No dia 18/05/09 eu e minha turma da faculdade de Medicina da UFF fomos convidados a assistir a palestra das Forças Armadas sobre a necessidade legal de todo recém formado em Medicina, Veterinária, Odontologia e Farmácia se reapresentar para regularizar sua situação junto à “nação”.

Quando fiz 18 anos me apresentei na Marinha e nunca tive a intenção de servir. Fui, felizmente, dispensado por “excesso de contingência” na época.

Estava lá no auditório ouvindo a palestra do Major, quando quase no final ele falou: “...e existe a possibilidade de voluntariado para servir na Amazônia”. Uma estranha sensação surgiu dentro de mim. Uma vontade de uma vez na vida sucumbir à uma aventura que me desviasse de tudo que eu vinha planejando. Recém formado, fazendo pós-graduação de Homeopatia, fazendo cursinho para a residência de Psiquiatria, dando plantões e atendendo ambulatório em uma clínica psiquiátrica... teria que abandonar tudo por um ano, sem falar em abandonar meu namoro, minha família, meus amigos, meus cachorros, minhas aulas de kung fu... tantos detalhes, tantas coisas! Minha cabeça tornou-se um turbilhão naquele momento. E o Major continuava: “vocês terão que passar por uma seleção, fazer um treinamento... não esperamos que vocês se tornem Rambos, mas precisam aprender a prestar uma continência, dar uns tiros, enfim, aprender um pouco sobre a vida militar...”.

E foi assim, após uma simples palestra, sem nunca ter cogitado isso, que decidi me voluntariar para ser médico do Exército por um ano na Amazônia.