No último domingo eu estava de plantão. À noite estava lendo sobre um avanço na Classificação Internacional das Doenças (CID - 10), que rotula, sob o código F44.3, o chamado "Estado de Transe e de Possessão". Trata-se de um transtorno caracterizado por uma perda transitória da consciência da própria identidade pessoal quanto da consciência plena do ambiente. Devem ser incluídos nesse diagnóstico somente os estados de transe involuntários e não desejados, excluídos aqueles de situações admitidas no contexto cultural ou religioso do sujeito.

Ou seja: um indivíduo que ouça e veja os espíritos, ou que incorpore espíritos "voluntariamente", não é considerado doente, nem psicótico. E o mais interessante: um indivíduo que esteja sendo obsediado, que esteja "possuído" (como nos filmes "O exorcismo de Emily Rose" ou "O exorcista"), esses também não são considerados psicóticos, e sim com uma doença, um agravo de saúde, podendo ser classificado no CID-10 dentro deste espectro. Achei isso fantástico! Muito bom.
Lembremos que eu estava no meu plantão. Fui dormir. 5 da manhã fui acordado pelo enfermeiro para avaliar um rapaz que havia se cortado. Cheguei na sala de sutura, olhei o corte na perna, com uns 5 cm de largura e meio centímetro de profundidade. Perguntei:
- Rapaz! Como você fez isso aqui?
- Tenente, se eu te contar o senhor não vai acreditar.
- Conte! Garanto que vou!
- Eu moro com meus pais. Acordei gritando e me dei conta estava com o meu terçado (facão) na mão, a bainha na outra, ainda deitado na cama, e já estava com a perna cortada e sangrando! Foi obra do demônio que me possuiu! (Com a cara transfigurada de medo).
- Fica tranqüilo, o senhor vai levar uns pontinhos, coisa rápida!

Pedi para o enfermeiro limpar a ferida enquanto eu ia rapidamente ao banheiro lavar o rosto para acordar. Caminhei até o longo corredor do Posto Médico pensando na história do demônio. Quando eu coloquei o rosto no corredor levei um rasante de um morcego de um palmo e meio de comprimento! Recuei assustado, e o morcego continuou seu vôo até o fim do corredor, desaparecendo de minha vista ao fazer a curva na recepção. Em 8 meses neste posto, nunca havia visto um morcego entrar ali. Logo pensei: foi mesmo coisa do demônio! Por que? Bem...
Para identificar a presença de uma possessão, alguns ítens são observados. Um deles é a presença de animais sinistros ou insetos junto ao "candidato".

Se acredito nisso? Parcialmente. Sou espírita e budista. Acredito na obsessão como a influência de espíritos vingativos, mal-feitores, obcecados, viciados... enfim, numa aproximação com intenções negativas e prejudiciais na maioria das vezes. Mas que fala de obsessão, possessão, encosto... está falando da mesma coisa, mas com explicações distintas para o fenômeno. Assim como a sua forma de resolução. O exorcismo católico, ou de outras religiões (em voga mais do que nunca, veja
AQUI) não é efetivo, em meu ponto de vista, como é a ação de desobsessão. Esse assunto é complexo, e não pretendo esgotá-lo em um único post!
Um amigo me perguntou: mas como você explicaria o ocorrido sem envolver explicações sobrenaturais? Falei que estava apresentando fatos. dentre as explicações, o que dizer? Epilepsia? Surto psicótico? Ou o diagnóstico que existe no Código Internacional das Doenças utilizado no mundo todo: "estado de transe ou possessão"?
Mais vale o ensinamento de meu velho mestre de psiquiatria da UFF, quando o confrontei numa das primeiras aulas do curso sobre a origem das vozes ouvidas pelos psicóticos: "um bom psiquiatra dá o anti-psicótico e encaminha para um bom centro espírita!"
Crux sacra sit mihi lux
Non draco sit mihi dux
Vade retro satanás
Nunquam suade mihi vana
Sunt mala quae libas
Ipse veneno bibas